gototopgototop
  1. Skip to Menu
  2. Skip to Content
  3. Skip to Footer>

Não tem quem me tire daqui

A rotina dos agricultores da Agrovila da Barragem é dura. É preciso acordar cedo todos os dias, preparar a terra, livrá-la de tocos e raízes velhas, prevenir as pragas, ordenhar vacas, evitar que bodes e cabras invadam o terreno dos vizinhos, fazer a colheita e vender os excedentes. Depois de tudo isso, é preciso arrumar tempo e forças adicionais para complementar as refeições pescando no lago artificial formado após a construção da Barragem de Carpina, há pouco mais de 30 anos.

Valdenice Tomé Gomes não reclama. As coisas já foram bem mais difíceis ao longo dos seus 68 anos de vida. Hoje, mora sozinha e ninguém, nem mesmo a filha que é sua vizinha na vila, depende dela para sobreviver. Houve um tempo, contudo, em que ela tinha de trabalhar na roça, pescar, criar 13 filhos, batalhar pela saúde de um filho adotivo e, em plena ditadura militar, lutar contra o governo para garantir a posse de um pequeno lote de terra.

Antes da barragem, Valdenice morava na comunidade de Ilhetas, que ficou submersa pelo lago artificial. Antes mesmo das águas subirem, ela e o marido Severino levaram os 13 meninos para perto do canteiro de obras e passaram a fornecer comida para os “496” operários contratados pela empreiteira. Enquanto ela cozinhava e servia as mesas, dava um jeito de cuidar das crianças. O marido aproveitava o dia para comprar e vender cabeças de gado, bodes ou porcos. À noite, trabalhava como vigilante da própria construção. O tempo para dormir era pouco. Para divertimento, nenhum.

A inauguração da barragem, em 1978, complicou ainda mais as coisas para o casal. Na época, a direção do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (Dnocs), responsável pela obra, tentou obrigá-la a sair das margens do lago sob a alegação que estavam em terras que tinham se tornado patrimônio federal. Valdenice conta que todos sabiam que os terrenos, valorizados graças ao grande volume de água, seriam “comprado” em seguida por fazendeiros ricos da região.

“Meu pai faleceu e deixou a propriedade dele dentro das águas. Então, eu continuava herdeira e já residia aqui, então eu esperei receber. Quando vieram pagar, só dava pra comprar uma unha e morrer embaixo do viaduto com uma turma de meninos pedindo esmola”.

“Aí, a turma do Dnocs veio, pedindo pra eu sair. Eu digo: ‘Pague o que me deve’. Responderam: ‘A senhora só recebe quando sair’. Eu digo: ‘Isso é conversa pra consolar! Só saio daqui se me der um prazo determinado, quando eu encontrar um lugar que eu veja que é conveniente e que dê pra eu viver com os meus filhos. Não vou sair assim nas carreiras, não’.”

“Alfredo, o engenheiro, ficou como chefe. Botaram um tenente ali, tomando conta de uma casa. Esse tenente passou seis meses me filmando. Eu tava trabalhando, ele chegava e me filmava. Eu disse pro doutor Alfredo: ‘É doutor, é muito lamentável, mas eu não vou pedir esmola, não. Eu tinha onde morar, eu tinha onde trabalhar. O senhor mandou cortar minha lavoura, cortaram minha energia’. Sabe qual foi o meu final? Fui na Assembléia¹, falei com os deputados, mas não tem quem me tire daqui. O doutor Alfredo disse: ‘Se a senhora tiver peito, a senhora se segura. A casa vai ser virada, a máquina vai vir e vai derrubar tudo’. Eu disse: ‘Me seguro’.”

As caminhonetes vieram e cortaram minha cerca à noite, cortaram todinha. Vieram quatro carros do Dnocs, chegaram de dez horas da noite, cortaram oito carretéis de arame que eu tinha comprado para cercar as plantações de palma, milho, feijão. Eu não ia morrer de fome, nem meus filhos. Não tinha como, eu ia morar onde?”

O caso só foi resolvido em Brasília, para onde Valdenice viajou com passagem doada pela Assembléia Legislativa. Antes, ela procurou o sindicato rural, a Fetape² e até uma emissora de tevê. Por medo ou omissão, ninguém comprou sua briga. Ao mesmo tempo em que ela batia nas portas dos gabinetes, seu marido tinha de passar meses nos canaviais de São Paulo, trabalhando como bóia-fria para sustentar a família. Valdenice lutava sozinha.

Na capital do País, ela contou com a ajuda da militante dos direitos humanos Sônia Wright³ e o então deputado federal Sérgio Murilo Santa Cruz. Sônia conseguiu advogados dispostos a defender a camponesa. O parlamentar levou o caso até o ministro do Interior, Mário Andreazza. Depois de muito ser pressionado, o ministro aceitou uma proposta do deputado e cedeu a área para o Sindicato, que arrendou os lotes para os moradores. Valdenice sonha com o dia em que receberá o título de posse da terra das mãos do presidente da República.

O sacrifício para conquistar o direito à terra para trabalhar foi mais um dos obstáculos que Valdenice teve de enfrentar. Ela conta que, desde criança, sempre trabalhou para ajudar a família, além de suportar uma escola onde os professores hostilizavam as crianças filhas de trabalhadores rurais. Festas e brincadeiras eram coisas com as quais ela nem imaginava ter direito.

“Agradeço muito a Deus e a meus pais porque eu não sei o que é vagabundear, eu nunca conheci o que é boneca, eu nunca conheci uma bola, eu não sei o que era um dia de domingo pra sair, pra se divertir. Era só no campo, trabalhar. Dia de domingo, meu pai dava por conta pra eu tirar seis feixes de capim. Quando eu chegava em casa, era uma e meia, duas horas da tarde. Quando eu tomava um banho, eu tava me tremendo pra comer. Quando terminava de fazer a refeição do almoço, eu ia torrar café, pisar”.

“Se a gente fosse pra uma festa, era pra procissão a partir de cinco horas. De oito horas, dez horas tava em casa. Mas era tanto bicho pra gente cuidar, que quando terminava de dar a ração aos bichos, já eram sete horas da noite. Aí mãe dizia: ‘O que é que vocês vão fazer na festa uma hora dessas?’”

“Vocês me viram com a roupa remendada? Porque essa calça, ela tem o bolso grande, eu boto ela bem presa, aí eu vou a plantar, tá remendada, mas eu não me importo, não. Minha menina diz: ‘Mãe, tira essa roupa! Isso é roupa de mendigo’. Eu digo: ‘Roupa de mendigo não, é roupa de gente que gosta de trabalhar’. Quando eu chego dentro de casa, eu tiro. Quando eu tô no campo, vem um espinho fura, vem um arame corta, rasga. A minha vida foi sempre essa. Eu dizia: ‘Mas não tem nada, não, vamos cuidar, ter fé em Deus, que eu vou tirar vocês dessa. Deus quer e vocês vão sair dessa luta de cortar cana’.”

“O meu marido viajava pra cortar cana, eu passava 15 dias lá na barragem, com a barraca armada, pescando e trabalhando, tirando leite, gado, as vacas tudo ao redor da barraca... Cabra, carneiro. Toda a vida eu gostei de trabalhar, eu nunca parei. Eu roçava os matos, isso eu arranco o mato, eu cavo roça, eu arranco mandioca, ajudo na casa de farinha, o que tiver. Olhe, eu não escolho serviço, não. Meu serviço é serviço do campo mesmo, isto é, monto a cavalo, eu tiro leite, eu tiro capim, boto capim pro gado”.

Em todos esses anos de trabalho árduo, Valdenice contabilizou alguns sucessos e, pelo menos, uma grande derrota. Além de conquistar o lote de terra de onde tira seu sustento, ela registra como vitória o fato de ter garantido para os filhos um destino diferente do seu, pois estão todos espalhados pelo Brasil, trabalhando em diversas atividades. Uma das filhas,Valdênia, vive na agrovila e herdou da mãe a liderança da comunidade e a capacidade para articular com gestores públicos e dialogar com a sociedade civil.

As lembranças de seu maior fracasso, porém, estão espalhadas pela casa onde vive: são as fotos de um filho adotivo, uma criança desnutrida que ela “pegou para criar” na década de 80, morto com problemas neurológicos antes de completar seis anos.

A proximidade da barragem ampliou as possibilidades de trabalho para os moradores da agrovila e ela não deixou passar a oportunidade. Para melhorar a qualidade de vida da família, ela aprendeu a pescar na mesma época em que lutava pela terra. Durante muitos anos, a pesca foi farta, mas as coisas mudaram nas águas represadas do Capibaribe.

“Antes variava, dava traíra, cará, piaba, pitu, camarão. Ainda hoje eu pesco, só que a pescaria, agora, tem de ser de viveiro. Acredite quem quiser acreditar. Porque é o seguinte: você pega uma tela, como daqui pra aquele curral, vem com uma criação de peixe e solta ali dentro. A ração é todo dia em cima da água, o peixe come, come e tem aquele prazo certo”.

“Você, com aquela experiência, já tem uma idéia de como é que vai dar aquele pescado. Aí, você faz o quê? Procura a freguesia, já instala outro viveiro em outro setor. Quando você tira esse aqui, ali na frente já tem outro e, na outra semana, você tira. Aqui, você descansa a semana todinha. Na outra semana, você vai lá e já bota outra criação nova, e assim continua”.

De tanto pescar, ela aprendeu muita coisa sobre o rio, os peixes e os animais que vivem em suas margens. Com esse conhecimento, ela assegura que a poluição no Capibaribe não é coisa nova, ao menos, não para ela. A sujeira, porém, não é suficiente para afastar alguns animais de grande porte que vivem na beira da água e que já foram muito comuns na Bacia do Capibaribe.

“A água era poluída porque nunca teve tratamento, né? O esgoto do hospital de Limoeiro cai todinho dentro do rio Capibaribe. E ainda hoje cai do mesmo jeito”.

“Capivara é que nem uma lontra, é, que anda dentro da água? No mato que tem dentro do açude, tem cada capivara desse tamanho. Ninguém pode mais plantar feijão de corda e milho, não. Elas toram o milho com tudo. Esse vizinho mesmo aí, só não ficou de esmola o ano passado por que Deus é grande. Não é fácil de ver, não. É fácil de noite, com a lanterna, porque ela anda com o rebanho de noite, pela beira. Às vezes, até de dia, pela coincidência, ela aparece”.

“E tem jacaré, tem cada jacaré! Uma vez, eu tava puxando a rede e achando pesado. Aí, balançou a rede, eu digo: ‘Isso é um peixe grande, deixa eu ver se ele vai se enrolando’. Nada! Quando eu puxei, a canoa estremeceu. Eu digo pro menino que tava remando: ‘Segura, rema pra trás, rema pra trás, que tem um peixe grande aqui, é um peixe grande demais!’ Quando eu puxei mesmo, ele deu aquela entrada assim pro lado da canoa, quando chegou na costela da canoa, eu vi o papo amarelo dele todinho assim. Fez ‘pá’ na canoa, me jogou lá fora, torou a rede e foi embora. Era um jacaré”.

_________

¹ Assembléia Legislativa de Pernambuco. ² Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de Pernambuco. ³ Sônia Wright é cientista política e integra a Rede Mulher e Democracia.

 

Adicionar comentário

Código de segurança
Atualizar