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Nós somos Lenhadores, vivemos da arte

Quando o Capibaribe chega a Paudalho, encontra uma cidade bem diferente de outras que cresceram de costas para suas águas. Na Zona da Mata, a riqueza da cana-de-açúcar construiu casas, praças, áreas de lazer e prédios públicos, todos voltados para o rio. A localização do casario não é gratuita, é, sim, a expressão do relacionamento que a cidade manteve com o rio ao longo de sua história.

Em Paudalho não há a frenética prosperidade das fábricas de roupas de Toritama e Santa Cruz do Capibaribe. Também não existem restos de um passado grandioso, como em Limoeiro. Na cidade, o clima é de festa. Em junho, a população dança com mais de 30 quadrilhas, porém vibra para valer com as disputas ferrenhas entre três delas: a Emenda, a Rosa Linda e a Mastruz com Leite. Já no carnaval, o Caboclo Urubá, o Bloco do Marreco, o Leão Quebra-osso, As Donzelas e o Cruzeiro, são coadjuvantes da quase centenária rivalidade entre os clubes Lenhadores e Estrela.

De domingo a terça-feira de carnaval, os dois clubes desfilam pelas ruas da cidade, obedecendo a um percurso combinado previamente e em horários diferentes. O acerto é necessário para impedir o encontro das agremiações e evitar socos e pontapés, comuns em outros tempos. As fantasias, máscaras e alegorias são preparadas em segredo nos meses que antecedem à folia. Maria de Jesus Soares de Araújo ajuda a por lenha na fogueira dessa rivalidade desde que era menina.

Aos 70 anos, Maria de Jesus é a vice-presidente de Lenhadores, fundado em 1907 e mais antigo dos rivais. Antes, ela já foi presidente oito vezes e diretora-social outras tantas. Foi a mãe, Maria José, que a levou junto com as três irmãs para o clube. Ela não casou e acabou sendo a única da família que dedicou boa parte de sua vida ao Lenhadores.

“Por volta assim dos 13 anos de idade já acompanhava minha mãe nas costuras do clube, na época do desfile. O trabalho das crianças era apanhar agulha, vidrilho, porque naquele tempo era vidrilho, se bordava com vidrilho. Hoje em dia, tem lantejoulas, tem bico, aquelas rendas bonitas, não é? E a gente fazia esse trabalho. Fui crescendo, fui crescendo, virei presidente do clube. Só tem uma coisa que eu não quero ser: tesoureira”.

“Para fazer o desfile a Prefeitura ajuda e a diretoria sai pedindo com o Livro de Ouro. E, com esse dinheiro, a gente consegue fazer a festa. E, uma das coisas que a gente faz questão no desfile, é orquestra de frevo boa! Só presta boa!”

O carnaval de Paudalho não tem concurso ou prêmios. Quem decide o vencedor é a opinião do povo na rua. Ou seja, não há vencedor, pois a cidade é praticamente dividida entre os dois clubes.

“Não tem concurso. Cada um trabalha pra sair o mais bonito. Cada um faz o seu percurso e não há encontro, entendeu? Não há! Porque muitas brigas já houve. Briga mesmo, de polícia levar preso”.

As histórias dos carnavais do século passado não registram apenas as brigas de rua no instante em que os clubes se encontravam em pleno desfile. Há recordações mais doces, revelando tradições locais que não se perderam e somam sabor às cores e aos sons da festa.

“Contava o meu avô que, quando tava na rua, visitava algumas casas e saía lanche. E o lanche eram filhoses¹, uma comida tradicional. Filhoses são doces. Aqui em casa mesmo, às vezes a minha irmã, a que reside em Maceió, porque tenho outra em Recife, gosta sempre de fazer filhoses na época de carnaval. Aí, oferece a quem for chegando aqui. Chega e vai comendo”.

A profunda ligação com o carnaval de Paudalho não fez de Maria de Jesus uma foliã. Introvertida, sossegada, ela costurou fantasias, organizou desfiles, arrecadou recursos, mas nunca desfilou. Ela não se arrisca nem a cantar o hino de Lenhadores, diz que “não tem jeito”. Só com a ajuda da amiga Maria do Socorro Assis, que estava em sua casa para lhe desejar os parabéns pelo seu 70º aniversário, comemorado exatamente no dia em que a entrevista foi realizada, cantarola os versos iniciais da música:

“Respeite meus senhores,

o nosso estandarte.

Nós somos Lenhadores.

Vivemos da arte.”

Maria do Socorro, por sinal, é Estrela. Ou seja, é torcedora e costureira do clube arqui-rival. Em Paudalho as coisas são assim: o clima esquenta quando o assunto é carnaval, mas são raros aqueles que confundem as coisas. O resto do ano é tempo de paz, assegura Maria de Jesus:

“Quando eu realizava o aniversário de pai todo ano aqui, a casa ficava cheia de Estrela e Lenhadores. Aí, tocava o Hino do Estrela e tocava o Hino do Lenhadores”.

Maria do Socorro confirma, recordando mais um fato:

“Os parentes de Jesus eram todos Lenhadores, não é? São Lenhadores ainda. Mas ela tem muitos amigos que são do Estrela, aí, por sinal, o menino que veio tocar não sabia tocar o hino do Estrela. Por isso não, a gente cantou”.

O aniversário do pai de Maria de Jesus era motivo mais do que suficiente para unir os torcedores dos dois clubes e de quantos mais existissem em Paudalho. Severino Soares de Araújo nunca foi um homem rico e jamais teve poder político, mas era respeitado por todos na cidade.

Negro, filho de uma família pobre, estudou bastante – muitas vezes por conta própria – e se tornou funcionário público federal, ao ser contratado agente de estatística do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso já era o bastante para alguém ser visto como uma referência pelos paudalhenses, mas ele foi o responsável pela confecção dos mais detalhados mapas com os mananciais de água da região. Severino também tinha muito conhecimento da língua portuguesa, lia bastante e, quando morreu em 2007, aos 98 anos, era conhecido por dois apelidos na cidade: Dicionário ou Enciclopédia.

“Ele fez até o mapa da cidade, com os dados da população, quantas pessoas, de tudo em relação à cidade, pontos históricos. E quando chegava visita pra construir uma indústria, um negócio, procurava ele pra saber qual o ponto melhor na cidade. Ele, antes de ser contratado para o IBGE, iniciou num balcão de padaria. E ele era quem traçava a quantidade de trigo para pão, bolacha e assim por diante. Nessa época, ele aprendeu datilografia. Naquela época, quem sabia datilografia era demais”.

“Ele sempre era chamado pra fazer alguns escritos da delegacia, da prefeitura, fazia a contabilidade do comércio. Foi assim que chegou uma carta de alguém da Presidência da República para o Prefeito e demais pessoas, como da Câmara, pra indicar uma pessoa para um serviço do IBGE. Aí todo mundo: ‘É Severino’.”

O emprego público obrigava Severino a visitar constantemente o Recife. Muitas vezes, levava as filhas e a esposa, que aproveitavam para fazer compras no comércio da capital. Em um desses passeios, Maria de Jesus pôde conhecer pessoalmente um dos ídolos do pai, o então presidente Getúlio Vargas, que iniciava sua segunda passagem pela presidência depois de ter sido eleito em 1950.

“Um belo dia, fui para Recife com meu pai, acho que eu tinha 10 anos, 11 anos. Esperando o ônibus ele disse: ‘Não saia daqui não, viu!’ E eu ali, olhando os carros passando, aí, de repente, parou um carro, depois muitos carros, muitos carros, me salta um senhor baixinho, todo de branco o chapéu, a bengala. Eu pensei: ‘Oxente! Aquele é Getúlio!’ Aí gritei ‘pai’ e ele veio. Eu disse: ‘Olhe, quem chegou aí foi Getúlio Vargas’. Ele respondeu: ‘Que história, menina!’ Quando ele chegou em casa, o rádio ligado deu a notícia: ‘Por motivo superior, o avião teve que aterrissar em Pernambuco’ e mais não sei o quê. Aí, ele olhou assim pra mim: “Menina, você conheceu o homem e eu não conheci!’ Isso foi em frente do Grande Hotel, na parada de ônibus para o Interior.”

O exemplo e o apoio do pai sempre estimularam Maria de Jesus, que se formou em Pedagogia na Universidade Católica de Pernambuco estudando à noite, em Recife, para onde viajava depois de trabalhar durante o dia todo em sua cidade. Depois de formada, dirigiu a Escola João Cavalcanti Petribu até a aposentadoria, há pouco mais de 20 anos. O que Severino nunca estimulou foi a presença das quatro filhas nas brincadeiras e banhos de rio. Brincar na areia das margens até podia, banho e mergulhos, jamais. Banho era privilégio dos meninos.

“Brincadeira era mais em casa naquele tempo, mamãe não deixava sair. Hoje em dia, pode tudo. Brincar no rio era uma beleza. Naquela época, quando eu era criança, quando olhava assim só via a areia, a meninada toda brincando na areia, era limpo, muito limpo. E, quando o rio tava cheio, vinha alguém com um barco para passar para o outro lado. Era, tinha um barco”.

“Agora, banho não tomava, não. Tinha gente que tomava, mas não dava certo a gente tomar banho ali. Eu via, mas não participava, porque filha era mais presa”.

 

Comentários 

 
#2 Jesus!amei tudo isso,bjs 26/11/2012 18:00
Obrigada!Jesus,por tudo de bom que vc e os seus fizeram e fazem pela minha amada terra,os seus avós e os seus pais foram maravilhosos,eu tive o prevelégio de ter conhecido e convivido com eles,uns verdadeiros doçes .Obrigada por tudo,beijossss:Acidália de Oliveira.
 
 
#1 Augusto 12/02/2012 14:26
Gostei, essa é minha tia...
 

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